“Pantera Negra” (o filme) e os Panteras Negras

Escrevi este texto (sem spoilers) a fim de oferecer alguns subsídios para as discussões que pretendem articular “Pantera Negra”, o filme recém-lançado pela Marvel, com a história e o ideário do Partido Pantera Negra, fundado em 1966 por Bobby Seale e Huey Newton. Meu propósito não é, evidentemente, abordar exaustivamente essa aproximação, mas apenas propiciar alguns elementos que podem ser úteis a quem dedicar-se a essa tarefa. Em notas de rodapé, indico alguns textos e passagens constantes da antologia Por uma revolução antirracista: uma antologia de textos dos Panteras Negras (1968-1971) que podem ser úteis para questionamentos mais aprofundados.
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1. O ponto de aproximação mais evidente entre o filme e a organização revolucionária é o nome do personagem. O que comumente se afirma é que Stan Lee e Jack Kirby criaram o personagem meses antes da fundação do Partido, influenciados pela luta pelos Direitos Civis; mas alguns detalhes podem enriquecer essa reflexão. Concretamente, o Partido Pantera Negra foi fundado por Huey Newton e Bobby Seale em outubro de 1966 – cerca de 3 meses após a primeira aparição do personagem da Marvel (em Fantastic Four # 52); todavia, o Partido só se tornaria efetivamente conhecido em maio de 1967, após a “invasão” de Sacramento (quando 30 Panteras Negras foram para a capital da Califórnia, em protesto contra a aprovação de uma lei que pretendia restringir o porte de armas, concebida especialmente para deter as “patrulhas” dos Panteras). Não obstante, a pantera negra já era usada como símbolo por muitos grupos negros, na época: os fundadores do Partido adotaram a Pantera Negra inspirados pelo logotipo da Organização pela Liberdade do Condado de Lowndes (Lowndes County Freedom Organization); no mesmo período, diversos outros grupos políticos negros utilizavam o símbolo, dentro e fora da Califórnia. No filme, é também relevante observar a importância conferida a Oakland, cidade na qual o Partido Pantera Negra foi fundadoi.

2. Wakanda, a nação africana regida pelo Pantera Negra da Marvel, é mantida a partir de uma gestão inteligente de recursos – sobretudo do “vibranium”, o valiosíssimo metal que constitui a principal riqueza dos wakandianos. É graças ao modo como Wakanda administra sua reserva de vibranium que a nação pode manter-se independente do resto do mundo, chegando a adotar uma postura isolacionista (pelo menos até a regência de T’Challa). Isso pode remeter a um princípio fundamental para os Panteras Negras: a autodeterminação – uma lição que fora ensinada por Marcus Garvey, muito bem compreendida por Malcolm X. No Programa de Dez Pontos original do Partido Pantera Negraii, o primeiro ponto de “O que nós queremos” ressalta o desejo de determinar o destino da própria comunidade; já o ponto correspondente de “Em que nós acreditamos” afirma que apenas dessa forma o povo negro será livre. Por outro lado, a noção de autodeterminação era fundamental para a noção de “Poder Preto” (“Black Power”): a despeito das divergências de estratégias entre os diferentes grupos, todos compartilhavam a certeza de que os pretos só poderiam alcançar a liberdade coletivamente caso fossem os senhores de seu próprio destino. Isso não quer dizer, entretanto, que todos compartilhassem a mesma visão estratégica sobre como atingir esse objetivo…

3. De fato, a tensão política que encontramos entre os personagens de “Pantera Negra” – em particular entre T’Challa, as lideranças wakandianas e Erik Killmonger – pode ser aproximada da tensão que havia internamente, no Partido Pantera Negra, e entre este e os outros grupos políticos da época. Os questionamentos dos wakandianos acerca de suas próprias tradições e sobre seu posicionamento político perante o mundo (que dizem respeito, afinal, ao próprio destino de Wakanda) podem ser aproximados das divergências entre os Panteras Negras – cujo aspecto mais extremo era a tensão entre as visões de Huey Newton e Eldridge Cleaver: cabia manter a posição revolucionária, levando até o fim a luta armada, ou optar por uma agenda mais reformista que, não obstante, permitisse ao Partido melhor servir à comunidade?iii Alguns pontos são dignos de nota, nesse sentido. Em primeiro lugar, vale notar que o círculo de T’Challa não recusa o apoio de um branco, que em determinado momento se revela bastante útil; uma postura que remete à disposição dos Panteras Negras para estabelecer alianças com revolucionários brancos, em oposição a outras organizações políticas negras da época. Em segundo lugar, é interessante perceber que a posição política assumida por T’Challa no desfecho do filme se assemelha à orientação determinada para o Partido Pantera Negra quando Huey Newton, após sair da prisão, tornou-se a figura dominante (ainda a esse propósito, pode ser interessante comparar a distribuição de cargos planejada por T’Challa à estruturação do Partido Pantera Negra, com seus “ministérios” e postos hierárquicos distribuídos entre as lideranças).

4. Finalmente, um dos pontos mais fascinantes do filme – a importância conferida às personagens femininas – também pode ser aproximada do papel que as mulheres assumiram no Partido Pantera Negra. Desde o princípio, o Partido abriu espaço para discussões sobre gênero, enfatizando a relevância das mulheres para o processo revolucionário. Isso não quer dizer que não houvesse sexismo entre os Panteras Negras – contudo, se inegavelmente havia homens no Partido que se recusavam a abrir mão de valores patriarcais, diversas mulheres Panteras Negras abriram espaço até posições de liderança; e foram elas as responsáveis por sustentar a organização, quando as autoridades governamentais se ocuparam de prender e eliminar os líderes homens, subestimando as lideranças femininasiv. Em “Pantera Negra”, o filme, as mulheres ocupam um papel primordial: sem o conhecimento tecnológico de Shuri (a pessoa mais inteligente do mundo, nas palavras do produtor Nate Moore), a argúcia e o senso estratégico de Nakia, a competência marcial de Okoye e a sabedoria de Ramonda, que seria de T’Challa?

Notas

i Ver o texto introdutório: Por uma revolução antirracista: síntese histórica e trajetória ideológica do Partido Pantera Negra. Sobre a relação pessoal entre o diretor Ryan Coogler e Oakland, ver este texto.

ii Ver 2. O que nós queremos agora! Em que nós acreditamos.

iii Essa é uma questão que perpassa praticamente todos os textos publicados na antologia, de modo que não faz sentido destacar textos específicos. Para além disso, o texto introdutório elucida as divergências entre Newton e Cleaver, bem como seu impacto para os rumos do Partido.

iv Ver 6. A mulher preta; 8. A mulher preta revolucionária; 21. Mensagem às mulheres revolucionárias; 25. Uma carta de Huey para os irmãos e irmãs revolucionárias sobre os movimentos de libertação das mulheres e de libertação gay; e 28. Comunicado à imprensa: libertação das mulheres. No texto introdutório à antologia, discuto mais amplamente o lugar das mulheres no âmbito do Partido Pantera Negra, bem como as denúncias de sexismo por suas integrantes.