Palestra em São José do Rio Preto

Fotos da palestra “Revolucionários são transformadores: antirracismo e antissexismo na luta política dos Panteras Negras”, ministrada por mim na Unesp de São José do Rio Preto em 5 de junho, a convite das alunas e alunos organizadores da Semana de Letras.

Sobre Kathleen Cleaver

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Até hoje um dos rostos mais conhecidos dos Panteras Negras, Kathleen trabalhava como secretária para o SNCC (Student Non-Violent Coordinating Committee, ‘Comitê Coordenador Estudantil Não-Violento’) quando conheceu Eldridge Cleaver, durante um evento realizado em 1967. Naquele momento, Eldridge ainda não participava oficialmente do Partido Pantera Negra, já que estava em condicional.

Kathleen e Eldridge não tardaram a se aproximar afetivamente, e logo estavam envolvidos com a luta em favor da libertação de Huey Newton – que corria o risco de ser condenado à pena de morte, acusado de assassinar o policial John Frey. Já nessa ocasião, Kathleen desempenharia um papel crucial: foi dela a ideia de fazer manifestações em frente aos tribunais durante as sessões em que Huey foi julgado, a fim de atrair jornalistas. Kathleen também começou a distribuir comunicados à imprensa informando sobre outras manifestações dos Panteras Negras, assim se tornando a Secretária de Comunicações do Partido e uma de suas principais porta-vozes.

Em dezembro de 1967, Kathleen se casou com Eldridge, contra a vontade de sua família – já que ele ficara preso por nove anos. Os Cleavers se tornariam figuras centrais no Partido Pantera Negra: Eldridge seria um de seus principais ideólogos; Kathleen administraria as relações com a imprensa, planejaria eventos e manifestações e seria uma das mais importantes faces públicas dos Panteras.

Após a ruptura entre Huey Newton e Eldridge Cleaver que resultaria na expulsão deste, em 1971, os Cleavers fundaram outras organizações revolucionárias. O casal posteriormente se divorciaria; se Eldridge passaria a adotar posições políticas conservadoras, Kathleen Cleaver permaneceria fiel aos ideais progressistas, formando-se em direito, trabalhando ativamente na campanha pela libertação de Mumia Abu-Jamal e preservando o legado dos Panteras Negras.

Sobre o “Novo Partido Pantera Negra”

O “Novo Partido Pantera Negra” foi fundado em 1989 por dissidentes da Nação do Islã e se apresenta como sucessor do Partido Pantera Negra original, fundado por Huey Newton e Bobby Seale. Contudo, o “Novo Partido Pantera Negra” defende ideias que, em vários pontos, contradizem as posições políticas dos Panteras Negras originais.

Seu “Programa”, por exemplo, se apropria do Programa de Dez Pontos do Partido Pantera Negra, reproduzindo trechos do texto original, mas introduz crenças religiosas, segregacionistas e nacionalistas que não faziam parte do ideário dos Panteras. Em vídeos disponibilizados na internet, representantes do “Novo Partido Pantera Negra” endossam discursos de ódio, permeados por crenças racistas e supremacistas, que contradizem explicitamente as ideias defendidas pelos Panteras Negras

originais. A esse propósito, considero pertinente reforçar que os Panteras Negras não eram racistas e não eram supremacistas; na verdade, eles foram criticados por organizações mais extremistas justamente por se aliarem a grupos revolucionários formados por brancos.

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Não obstante, o “Novo Partido Pantera Negra” procura legitimar-se pelo uso de elementos que remetem ao Partido Pantera Negra original — desde os uniformes até o logotipo, como pode ser percebido pela imagem que ilustra este texto. A impertinência dessa atitude pode ser percebida pelas veementes críticas da Fundação Huey Newton, criada para preservar o legado do Partido Pantera Negra, que comparou o “Novo Partido Pantera Negra” à KKK.

“Pantera Negra” (o filme) e os Panteras Negras

Escrevi este texto (sem spoilers) a fim de oferecer alguns subsídios para as discussões que pretendem articular “Pantera Negra”, o filme recém-lançado pela Marvel, com a história e o ideário do Partido Pantera Negra, fundado em 1966 por Bobby Seale e Huey Newton. Meu propósito não é, evidentemente, abordar exaustivamente essa aproximação, mas apenas propiciar alguns elementos que podem ser úteis a quem dedicar-se a essa tarefa. Em notas de rodapé, indico alguns textos e passagens constantes da antologia Por uma revolução antirracista: uma antologia de textos dos Panteras Negras (1968-1971) que podem ser úteis para questionamentos mais aprofundados.
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1. O ponto de aproximação mais evidente entre o filme e a organização revolucionária é o nome do personagem. O que comumente se afirma é que Stan Lee e Jack Kirby criaram o personagem meses antes da fundação do Partido, influenciados pela luta pelos Direitos Civis; mas alguns detalhes podem enriquecer essa reflexão. Concretamente, o Partido Pantera Negra foi fundado por Huey Newton e Bobby Seale em outubro de 1966 – cerca de 3 meses após a primeira aparição do personagem da Marvel (em Fantastic Four # 52); todavia, o Partido só se tornaria efetivamente conhecido em maio de 1967, após a “invasão” de Sacramento (quando 30 Panteras Negras foram para a capital da Califórnia, em protesto contra a aprovação de uma lei que pretendia restringir o porte de armas, concebida especialmente para deter as “patrulhas” dos Panteras). Não obstante, a pantera negra já era usada como símbolo por muitos grupos negros, na época: os fundadores do Partido adotaram a Pantera Negra inspirados pelo logotipo da Organização pela Liberdade do Condado de Lowndes (Lowndes County Freedom Organization); no mesmo período, diversos outros grupos políticos negros utilizavam o símbolo, dentro e fora da Califórnia. No filme, é também relevante observar a importância conferida a Oakland, cidade na qual o Partido Pantera Negra foi fundadoi.

2. Wakanda, a nação africana regida pelo Pantera Negra da Marvel, é mantida a partir de uma gestão inteligente de recursos – sobretudo do “vibranium”, o valiosíssimo metal que constitui a principal riqueza dos wakandianos. É graças ao modo como Wakanda administra sua reserva de vibranium que a nação pode manter-se independente do resto do mundo, chegando a adotar uma postura isolacionista (pelo menos até a regência de T’Challa). Isso pode remeter a um princípio fundamental para os Panteras Negras: a autodeterminação – uma lição que fora ensinada por Marcus Garvey, muito bem compreendida por Malcolm X. No Programa de Dez Pontos original do Partido Pantera Negraii, o primeiro ponto de “O que nós queremos” ressalta o desejo de determinar o destino da própria comunidade; já o ponto correspondente de “Em que nós acreditamos” afirma que apenas dessa forma o povo negro será livre. Por outro lado, a noção de autodeterminação era fundamental para a noção de “Poder Preto” (“Black Power”): a despeito das divergências de estratégias entre os diferentes grupos, todos compartilhavam a certeza de que os pretos só poderiam alcançar a liberdade coletivamente caso fossem os senhores de seu próprio destino. Isso não quer dizer, entretanto, que todos compartilhassem a mesma visão estratégica sobre como atingir esse objetivo…

3. De fato, a tensão política que encontramos entre os personagens de “Pantera Negra” – em particular entre T’Challa, as lideranças wakandianas e Erik Killmonger – pode ser aproximada da tensão que havia internamente, no Partido Pantera Negra, e entre este e os outros grupos políticos da época. Os questionamentos dos wakandianos acerca de suas próprias tradições e sobre seu posicionamento político perante o mundo (que dizem respeito, afinal, ao próprio destino de Wakanda) podem ser aproximados das divergências entre os Panteras Negras – cujo aspecto mais extremo era a tensão entre as visões de Huey Newton e Eldridge Cleaver: cabia manter a posição revolucionária, levando até o fim a luta armada, ou optar por uma agenda mais reformista que, não obstante, permitisse ao Partido melhor servir à comunidade?iii Alguns pontos são dignos de nota, nesse sentido. Em primeiro lugar, vale notar que o círculo de T’Challa não recusa o apoio de um branco, que em determinado momento se revela bastante útil; uma postura que remete à disposição dos Panteras Negras para estabelecer alianças com revolucionários brancos, em oposição a outras organizações políticas negras da época. Em segundo lugar, é interessante perceber que a posição política assumida por T’Challa no desfecho do filme se assemelha à orientação determinada para o Partido Pantera Negra quando Huey Newton, após sair da prisão, tornou-se a figura dominante (ainda a esse propósito, pode ser interessante comparar a distribuição de cargos planejada por T’Challa à estruturação do Partido Pantera Negra, com seus “ministérios” e postos hierárquicos distribuídos entre as lideranças).

4. Finalmente, um dos pontos mais fascinantes do filme – a importância conferida às personagens femininas – também pode ser aproximada do papel que as mulheres assumiram no Partido Pantera Negra. Desde o princípio, o Partido abriu espaço para discussões sobre gênero, enfatizando a relevância das mulheres para o processo revolucionário. Isso não quer dizer que não houvesse sexismo entre os Panteras Negras – contudo, se inegavelmente havia homens no Partido que se recusavam a abrir mão de valores patriarcais, diversas mulheres Panteras Negras abriram espaço até posições de liderança; e foram elas as responsáveis por sustentar a organização, quando as autoridades governamentais se ocuparam de prender e eliminar os líderes homens, subestimando as lideranças femininasiv. Em “Pantera Negra”, o filme, as mulheres ocupam um papel primordial: sem o conhecimento tecnológico de Shuri (a pessoa mais inteligente do mundo, nas palavras do produtor Nate Moore), a argúcia e o senso estratégico de Nakia, a competência marcial de Okoye e a sabedoria de Ramonda, que seria de T’Challa?

Notas

i Ver o texto introdutório: Por uma revolução antirracista: síntese histórica e trajetória ideológica do Partido Pantera Negra. Sobre a relação pessoal entre o diretor Ryan Coogler e Oakland, ver este texto.

ii Ver 2. O que nós queremos agora! Em que nós acreditamos.

iii Essa é uma questão que perpassa praticamente todos os textos publicados na antologia, de modo que não faz sentido destacar textos específicos. Para além disso, o texto introdutório elucida as divergências entre Newton e Cleaver, bem como seu impacto para os rumos do Partido.

iv Ver 6. A mulher preta; 8. A mulher preta revolucionária; 21. Mensagem às mulheres revolucionárias; 25. Uma carta de Huey para os irmãos e irmãs revolucionárias sobre os movimentos de libertação das mulheres e de libertação gay; e 28. Comunicado à imprensa: libertação das mulheres. No texto introdutório à antologia, discuto mais amplamente o lugar das mulheres no âmbito do Partido Pantera Negra, bem como as denúncias de sexismo por suas integrantes.